Reflexão da Semana

Responsabilidades da fé cristã para com as questões ecológicas nos dias atuais.

Por Yohanna Simões de Oliveira*

Quando se vive na região amazônica, uma das regiões mundiais mais visadas e observadas pela comunidade internacional por sua exuberância natural, as dimensões das questões ecológicas se tornam gigantescas, proporcionais a abrangência de sua extensão territorial. É impossível deixar de confrontar-nos com as demandas gritantes e contrastes impressionantes com os quais nos deparamos todos os dias.

Certa vez, sobrevoando os arredores da capital do Pará, Belém, tive a oportunidade de observar o desmatamento avançando assustadoramente próximo das autoridades constituídas. Descobri que a maior parte daquela madeira extraída é empregada para alimentar os fornos das inúmeras olarias e para as carvoarias que se multiplicam na vizinhança.

Além disso, não passa despercebida, a qualquer um que transite por esta região, a situação da precariedade da moradia, da ausência de saneamento básico, da falta de estrutura de coleta e armazenamento de lixo e da poluição dos rios e igarapés. Como também é de entristecer o baixo nível de informação e de formação dos ribeirinhos, e até mesmo de moradores de metrópoles como Belém, Manaus e Macapá com relação à higiene e a saúde pública. Será que somos indiferentes a essa realidade?

Como cristãos inseridos nesse contexto, pesa-nos mais que a responsabilidade para com os temas ecológicos atrelados a ele, é-nos imperioso não só levantar questões ecológicas como dispor-nos a efetivar propostas de restauração integral do homem e de seu habitat. Afinal, o cristão comprometido com Deus e sua Palavra não tem a opção da omissão diante da sociedade. Ele deve conhecer a visão do Criador sobre sua criação, engajando-se na proclamação e na realização da Sua vontade.

Desde que ecologia trata da relação de interdependência dos seres vivos, criados por Deus (Gn 1.11,12,20-25), com o meio ambiente, criação de Deus (Gn 1.1-10,14-19), a interligação dela com a teologia fica óbvia. E quando o nosso foco concentra-se na relação do homem com o meio ambiente, descobrimos que, em seu plano perfeito, Deus conferiu ao homem a responsabilidade de governar o meio ambiente (Gn 1.27-29). O homem devia cultivar o jardim, guardar (Gn 2.15) e usufruir dele. Não há margem aqui para exploração desenfreada de recursos naturais visando suprir uma produção ilimitada. Só a partir do evento do Pecado, o homem deixa de administrar, e passa a degradar o meio em que vive, por ter fugido do plano inicial do Criador.

Ao longo das Escrituras acompanhamos a preocupação de Deus com o homem e com a relação dele com a Terra. Por exemplo, Deus expressa isso através de leis que entregou a Israel. A lei do ano sabático estava ligada diretamente a utilização da terra (Ex 23.11) pelo homem bem como um cunho social. Essa lei, além do descanso da terra, garantia a assistência social aos carentes. Também observamos o interesse do Senhor em assuntos como o equilíbrio ecológico quando esclareceu que não tiraria o povo cananeu da terra prometida de uma só vez para que as feras não se proliferassem na região (Ex 23.29), e a higiene do seu povo com uma lei que dá princípios de saneamento básico (Dt 23.13).

Diante dos fatos, entendemos que as questões ecológicas atuais como o uso da terra, a preservação ambiental, a poluição e o saneamento, bem como as implicações sociais ligadas a elas, não estão alheias ao ensino bíblico. Não há menção direta ao termo “ecologia” nele, mas é da Bíblia que retiramos os princípios e as práticas para nortear a postura da igreja, e particularmente do cristão, neste tema.

Muitos cristãos têm se apoiado em falácias para se manter à margem dos debates ecológicos. Crêem que por ser certa e iminente a volta de Cristo, tais assuntos não lhes dizem respeito, ou ainda que, segundo a afirmação bíblica, “o mundo jaz no maligno” (1 Jo 5.19) e por isso, não se envolvem com a realidade à sua volta. Por último, de forma até incoerente, não se manifestam contra o sistema do mundo por não quererem perder seu “status” político-social.

O cristão deve ser o agente de transformação também na ecologia. Ele deve decidir participar efetivamente nas discussões dessa área, atuando em diversas frentes: em seu trabalho, em sua vizinhança e nas comunidades de base, nos bairros e rincões onde estiver inserido. Além de atuação isolada, o cristão tem a chance de, através da comunidade da igreja, se posicionar perante a sociedade.

Vamos usar a região norte para avaliar as possibilidades de envolvimento por parte da igreja. Há tantos espaços e oportunidades para a ação estruturada da igreja e do cristão. A contribuição da igreja com a educação ambiental e com a cobrança das autoridades quanto à fiscalização de leis relativas à ecologia já existentes pode e deve ser feita nos locais onde ela está, mas também em escolas públicas, em locais de trabalho, etc.

Além disso, as igrejas podem promover cursos de saneamento básico, higiene pessoal, reflorestamento, realizar mutirões para despoluição de igarapés cheios de lixo, como também construções de fossas, banheiros e cozinhas adequadas para evitar disseminação de tantas doenças entre os ribeirinhos. Há ainda abertura para oferecer profissionalização ligada ao uso da terra, reciclagem de materiais orgânicos e inorgânicos, entre outras, dando oportunidade de melhoria social, pois a pobreza e a miséria sobrevivem nos arredores dos grandes centros urbanos, em meio ao lixo vindo de todas as camadas sociais.

Os ecologistas radicais, nem em seus melhores esforços, podem oferecer o principal fundamento da transformação do comportamento do homem. Só a Igreja de Jesus pode disponibilizar a transformação permanente, aquela que vem de dentro para fora. Quando a pregação do evangelho, que objetiva a transformação interna do homem, está associada à promoção de mudança no contexto humano, o impacto da mudança imprime um novo e permanente rumo ao homem e ao ambiente onde ele vive. O cristão promove uma revolução positiva na ecologia.

* Yohanna Simões de Oliveira – Bacharelado em Teologia pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida. Mestrado em Missões pelo Columbia International University (USA) é professora de Introdução ao Antigo Testamento, Hebraico e Comunicação Transcultural do Evangelho no IMPV.